terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Pelos olhos de Alice

                                 
Num dia estival, o rapaz comprou uma vela. Ela era rosa e única. Não representava nada para a menina de olhos castanhos. Decerto, ele queria iluminar sua vida, mas sempre cometia erros que não conseguia mensurar.
"Seu inepto"! Disse a menina em alto e bom tom e sem qualquer arrependimento, pois já não se importava mais com a empatia fingida da maioria. Aliás, ninguém percebia que ela, ao contrário dos homenzinhos grandes, era capaz de se colocar, com dolorosa maestria, no lugar de qualquer ser, fosse ele grande ou pequeno.
"Queria mesmo é que o sol declinasse e o já já deixasse de existir, a fim de que o bom futuro chegasse mesmo que sem sorrir!" Esbravejou a menina sem se importar se havia ou não luz em suas palavras.
Disse mais:
"A vida é urdimento de muitos fios entrelaçados. Não é possível, nos vários momentos, fazer medições da luz que passa entre eles."
"E, além do mais, caro e incômodo amigo, odeio velas. Trata-se de inútil objeto, que, sem querer-se fazer importar, representa a morte e a vida sem qualquer diferença constar".
"Já não tento mais fazer-me iluminar, visto que meus olhos, amigo, estão cansados e fracos diante de uma claridade pouco evidente que tantos, sem tê-la, querem mostrar".
Karoline Brasil